Terça-feira, 9 de Junho de 2009

A arte da política não é transformar um problema numa ameaça, e uma ameaça num conflito armado. A retaliação lógica, da Guerra Fria, poderá colocar-nos num declive escorregadio, com consequências imprevisíveis.

enlarge: ponte para nenhures

Com os seus 60 anos de existência, a Coreia do Norte mantém-se como o último Estado estalinista. Nesta restritiva sociedade, é difícil - se não impossível - aos residentes aperceberem-se da realidade em que vivem, comparativamente com o "mundo ameaçador" do exterior.

enlarge: fucking anecdotic © Eric Lafforgueenlarge: fucking desert © Eric Lafforgue enlarge: fucking gray by Eric Lafforgueenlarge: fucking align
Complicar o puzzle

 

As notícias do teste nuclear na Coreia do Norte em 25 de Maio vieram, possivelmente, esgotar a já pouca paciência existente em relação a Kim Jong-Il.

Os sul-coreanos estão preocupados não só com a sua segurança, mas também com a situação na Coreia do Norte fruto da solidariedade para os seus compatriotas, do outro lado da linha de demarcação e pelo desejo de uma, cada vez mais difícil, reunificação. Sem pânico, mas com emoção questionam-se sobre o que irá acontecer a seguir.

Há um ano os acontecimentos pareciam indicar um rumo bem diferente do actual, com a perspectiva de uma Península Coreana livre de armas nucleares cada vez mais realista. A Coreia do Norte tinha  concordado em encerrar o seu principal reactor nuclear, em Yongbyon, e em Junho de 2008, canais de televisão mostravam  a implosão da torre de arrefecimento do reactor, e a sua parcial desactivação. 18.000 páginas de documentação sobre o andamento de seu programa nuclear desde 1990, foram fornecidas aos Estados Unidos e à China. Foi permitido o acesso às suas instalações nucleares, aos Inspectores das Nações Unidas.

Então, de repente, veio a reviravolta. Foi negado o acesso aos inspectores, a desactivação do reactor de Yongbyon foi suspensa, retirou-se das conversações com os Estados Unidos, China, Rússia, Japão e Coreia do Sul, efectuou o seu segundo teste nuclear - o primeiro foi em Outubro de 2006 - e disparou pelo menos seis mísseis de teste em menos de uma semana. Como se tudo isto não bastasse, declarou nulo o armistício que terminou o conflito Coreano, de 1950-53, e deixou de reconhecer as fronteiras marítimas, no Mar Amarelo.

As avaliações do que poderá estar por detrás disto tudo, são as mais divergentes. No que respeita à Coreia do Norte alguns classificam as acções como irracionais, outros vêem como sendo uma tentativa para pressionar a comunidade internacional a dar mais ajudas; outros ainda sugerem que os acontecimentos é o aquecimento interno pela luta da sucessão. Na Coreia do Sul, alguns acreditam que a linha mais dura tomada pelo seu novo presidente para com o Norte tem sido contraproducente.

 

A confecção das pipocas

 

Ao virar pipoca, o milho estoira em todas as direcções. É necessário encontrar o caminho para retomar o diálogo político e diplomático, em particular com o das conversações das seis-partes. Mas mesmo a "paciência diplomática" tem limites, e a solução militar deve ser evitada.

Tal como uma criança que amua, Kim Jong-Il não gosta de ser repreendido, e pode-se entrar numa espiral que empurrará os norte-coreanos para a imprudência e consequente irritação das democracias, como pode ser visto na forte declaração feita pelo Conselho de Segurança da ONU.

Cabe ao Conselho de Segurança conceber acções concretas, que sublinhem a firmeza dos seus membros. Tem que ficar claro, ao regime norte-coreano, que o seu comportamento tem consequências. Mas para aqueles que esperam sanções duras, também devem ter em mente duas coisas. Primeiro, o povo sofredor da Coreia do Norte não deve ser refém do problema nuclear. Em segundo lugar, o colapso de um Estado com armamento nuclear, sempre muito problemático, pode ultrapassar esta barreira e tornar-se catastrófico.

enlarge: trabalhadores, em formatura(!), a caminho da fábrica enlarge: Cidade norte-coreana de Hyesan enlarge: edifício do partido, em Hyesan enlarge: dinastia Kim enlarge: dinastia Kim
enlarge: lavadeira enlarge: DMZ enlarge: Pyongyang enlarge: hora de ponta, em Pyongyang enlarge: Centro de Pyongyang
enlarge: transportes enlarge: carro de boi enlarge: A alfabetização das aves enlarge: KaGrandes passeios!!! enlarge: Guarda fronteiriço da Coreia do Norte
É a China que detém a chave para a Coreia do Norte?

 

A China pode ser a chave para a solução política, porque mantém relações com a Coreia do Norte a nível governamental, e porque lhe proporciona ajuda económica vital. Pode advertir Pyongyang que, a manter o rumo actual, vai ter graves consequências. Mas também é da China, como aliada da Pyongyang e membro do Conselho de Segurança da ONU, que se espera respostas a perguntas como: Onde está a "ameaça à soberania do país", tantas vezes invocado pela Coreia do Norte para as provocações militares?

Por isso, hesitam apoiar verdadeiras sanções como cortar o fornecimento de petróleo e carvão, que seria letais para a economia norte-coreana. Verdade, tais medidas poderiam desestabilizar o regime.

Kim Jong Il, sabe disso e está a tentar tirar vantagem do desejo de Pequim em querer estabilidade na península coreana, com actos provocatórios que podem alterar irreversivelmente algumas situações no nordeste da Ásia. A reacção chinesa é de cautela. De certa forma, receia uma implosão do regime norte-coreano, com uma avalanche de refugiados. Pequim, aparentemente, acredita que os seus interesses estão mais bem servidos com um regime norte-coreano fraco, e dependente da China, e aposta numa transição suave do poder. Os movimentos calculados de Kim, parecem concebidos para ajudar a garantir uma sucessão dinástica da Coreia do Norte, como sendo um estado com poder nuclear.

enlarge: ponte para nenhures

Só que a Coreia do Norte não é o Irão! Não possui petróleo nem gás natural para reverter o efeito das sanções. Se deixada "à rédea solta", Pyongyang vai tentar manter uma situação que lhe possibilite manter a chantagem - as armas nucleares. E o que é mais perigoso: a instabilidade da sucessão de Kim, ou a Coreia do Norte tentar redefinir o status nuclear na península coreana? Será essa é a causa para uma China tão cuidadosa?

Kim Jong-Il é, em parte, um produto da diplomacia chinesa que pode ficar envergonhada, se o pressionar sem sucesso. Mas Pequim também parece ter chegado à conclusão que o melhor passo para manter a estabilidade na Coreia do Norte, é apoiar outra transferência hereditária de poder. Independentemente das boas razões e cálculos da China, compete aos E.U. lembrar Pequim para os perigos de Kim ter margem de manobra. Um novo teste nuclear pode muito bem ser uma viragem na segurança efectiva da Ásia. Alguns políticos da Coreia do Sul já começaram a questionar se devem continuar a respeitar as restrições sobre as suas capacidades acordadas para mísseis com os E.U. em 1999. Novas acções de força de Pyongyang, podem levar a que outros, no nordeste da Ásia, considerem as suas próprias opções nucleares.

Os E.U. apostam no insucesso da tecnologia norte-coreana, nesta montra de demonstração comercial, que tem sido os últimos lançamentos. Irão, Síria e Venezuela podem não ter ficado muito convencidos com o foguetório, mas quanto ao teste nuclear, sem evolução tecnológica que pouco ou nada diferiu do de 2006, acaba mesmo assim por ser tentador.

O controlo marítimo, anunciado pela Coreia do Sul, de forma a desmobilizar intenções de tráfico nuclear, retira espaço de manobra a Pyongyang, e pode ser um rastilho. Da cooperação nuclear entre a Coreia do Norte e a Síria rendeu um acordo secreto para Pyongyang para construir um reactor de plutónio encoberto por Damasco. A força aérea israelita julgou ter resolvido o problema em Setembro de 2007, mas o projecto foi reiniciado.

O garrote da China sobre a Coreia do Norte é limitado, mas é mais significativo do que o de qualquer outra nação. Na verdade, a China revelou-se fundamental para levar Pyongyang de volta à ronda de conversações a seis, após o teste nuclear em 2006. Resta saber se a China pode colocar novamente suficiente pressão sobre a Coreia do Norte para a fazer mudar de curso. Se pode e se pretende!

link externo Time  2009.06.10 / Could North Korea Provoke a New Korean War?
link externo LIFE magazine  2009.06.10 / Pictures of North Korea's secrets and lies



ADzivo às 02:08 | link do post | comentar

2 comentários:
De Dulce Dias a 10 de Junho de 2009 às 07:47
Boa!!! Descobri-te!!! Que saudades que eu tinha do "meu" ADzivo!!

Mil beijos bloguistas
DD


De ADzivo a 11 de Junho de 2009 às 02:31
Recebo-os todos


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